Autor: cumbuca

  • Cúmplice

    Era sagrado. Não pulava um dia da semana se quer. De segunda a sexta-feira, religiosamente. Ele passava pela birosca que ficava (ainda fica, se não me engano), pouco antes da esquina que desaguava na rua em que morava. Antes de dobra-la, no entanto, e depois da via sacra operária, a pausa para a recompensa burguesa. Uma dose da branquinha e uma garrafa da gelada. Chegava em casa “alterado” como minha avó costumava implicar.
    Com o passar dos anos, já sem ela à espera, ele continuava com a procissão. Era ritual. Uma ladainha do terço. Com o passar dos anos, já com a doença senil que alterava lembrança e esquecimento, som e silêncio, o bar era sagrado. A dose e a gelada, no entanto, tinham virado uma latinha de Caracu. Vai entender o porquê. Ele saia bebendo. Andando e bebendo. Tinha pressa. Vai saber do quê. A lata ia camuflada dentro de uma sacolinha plástica. Coisa de adolescente. Dois ou três goles e pronto. Antes de abrir o portão, dispensava a prova no terreno baldio. Foi assim por um bom tempo.
    Preocupada com a mistura álcool e medicamento, confusão mental e embriaguez, minha mãe vetara a tal reza. Da rua direto pra casa. Mas como criança birrenta, ele deu de ombros. Continuou. A latinha de Caracu camuflada na sacolinha plástica estava todas as tardes no mesmo terreno. (Talvez o maior erro dele tenha sido este: não jogar o lixo no lixo. Só esse). Quando questionado sobre o bar, ele negava, com a cabeça baixa, feito menino que faz molecagem.
    Minha mãe, então, resolveu apelar pro dono do bar. Não vende mais pra ele não. Ele não pode beber. Mas dono de bar é cúmplice. Bom dono de bar é cúmplice quando sabe que o prazer é inversamente proporcional ao dano. Bom dono de bar é cúmplice quando enxerga nos olhos do freguês a satisfação e não a chateação. A alegria e não a amargura. Pois bem, as latinhas continuaram a brotar no terreno. Ele continuava a negar. O dono continuava a vender. Tudo continuou. Até o dia em que nem ele nem a latinha nem o dono do bar se encontraram mais. Foi fazer, feliz, a procissão no céu.

     


    Lívia Mota,  jornalista colaboradora do Cumbuca (saiba mais sobre a autora do artigo no QUEM FAZ)

  • O Sanduíche de Bacalhau

    * foto do Sanduíche de Bacalhau – Cabral do Presta Atenção (recomendadíssimo!)

    Quando alguém escrever a sério sobre a história do sanduíche, Campinas figurará, com certeza, como uma das capitais deste enredo. A primeira delas é, sem dúvida, a cidade de Sandwich, na Inglaterra, onde, segundo reza a lenda, o 4o Conde de Sandwich pediu a um criado que fizesse alguma coisa para que ele pudesse comer rapidamente, sem abandonar a mesa do carteado – até hoje não sabemos se ele não queria interromper a jogatina porque estava ganhando ou porque queria recuperar o que estava perdendo –, e o criado cortou dois pedaços de pão e colocou um naco de presunto no meio. (mais…)

  • Boteco na Estação tem gastronomia e o samba do Casa Caiada neste sábado

    Neste sábado, dia 15, a partir das 13h, o samba rola solto no Boteco na Estação, na Estação Cultura. Esta edição terá no comando o conhecido grupo Casa Caiada na tradicional roda de samba, com abertura do músico Choquito e banda Sabor Brasil. Nos intervalos, a música fica por conta dos DJs da Segunda da Ressaca, André e Alessandro.
    Para aliar boa música a gastronomia, haverá a praça da alimentação com quitutes e bebidas, além de barracas com roupas, acessórios e artesanatos.
    Nesta edição haverá uma parceria com o bloco de carnaval Nem Sangue Nem Areia, da Vila Industrial. Uma porcentagem das vendas dos botecos será destinada ao grupo para viabilizar o desfile do próximo ano.
    Foto: Neander Heringer
     

    Boteco na Estação – Campinas

    15 de outubro (sábado) – das 13h às 19h
    Estação Cultura Prefeito Antonio da Costa Santos (Praça Marechal Floriano Peixoto, s/n)
    Entrada gratuita e estacionamento pela Rua Francisco Teodoro, 1.050 – Vila Industrial

  • Marcamos presença na comemoração de 80 anos do Giovannetti

    O Cumbuca deu o ar da graça no evento que celebrou o aniversário de 80 anos da Choperia Giovannetti do Rosário, realizado no último sábado (08/10), na unidade. A comemoração contou com um menu degustação com direito a drinks feitos na hora pelo Kascão Oliveira, bartender convidado com mais de 30 anos de experiência. (mais…)

  • A incansável procura da coxinha perfeita

    Muitos não admitem, alguns nem sabem, mas estamos todos à procura da coxinha perfeita. É o Santo Graal dos botequeiros. Os donos de padarias, bares e similares bem o sabem, tanto é que não há estabelecimento que se preze que não as ofereça. Até postos de gasolina já as têm! Que pokemon, que nada! A verdadeira caçada dos brasileiros é pela coxinha perfeita.

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  • Mulheres no boteco: Fernanda, alma botequeira

    Fernanda Cavalcanti,  33 anos

    “Acho extremamente curioso sentar e conversar com os proprietários sobre as histórias dos botecos, isso me fascina”

    Fernanda vai aos botecos pelo menos duas vezes por semana para desfrutar do ambiente descontraído e da vasta quantidade de petiscos. Conta que sempre que possível tenta convencer os amigos a trocarem um restaurante ou bar mais refinado por um boteco mais sujinho, que é onde mais gosta de estar e se sente mais à vontade. Alguns amigos são parceiros frequentes em suas jornadas pelos balcões, mas seu namorado é ainda sua principal companhia, pois divide com Fernanda a mesma paixão, tendo inclusive um blog chamado Gole & Gula com relatos botequeiros e gastronômicos.
    A cerveja é sua melhor amiga, mas de vez em quando não dispensa uma dose de Campari ou da caipirinha de Campari encontrada no Presta Atenção. Apesar de não atuar na área, seu interesse por comida vem desde a sua formação em Engenharia de Alimentos e confessa que a combinação comer e beber é indissociável, por isso uma coisa nunca vem desacompanhada da outra.
    Suas porções prediletas são os lanchinhos boca de anjo com gorgonzola, pratos com joelho (do Rei do Joelho), porções fritas (como o doritos do mar do Bar do Carioca), pimentão recheado (do Bar do Fernando) ou o que for o carro-chefe de cada boteco. O que mais a atrai nos bares é o clima irresistível de camaradagem, animação entre os frequentadores, bem como os preços, geralmente, mais justos, as cervejas sempre geladas e as porções incrementadas.
    Como frequentadora nata de botecos, Fer reclama de algo unânime entre as mulheres: os banheiros. Ela conta que os banheiros femininos costumam ser bem precários, sem papel higiênico, espelho, às vezes até sem porta, e isso acaba por desestimular a presença das mulheres nos botecos. Comenta que já é tempo de uma mudança de atitude por parte dos donos de bares com relação a isso, oferecendo melhores condições e otimizando assim esses espaços para o público feminino.
    Ela conta que, apesar de encontrar muitas mulheres nos botecos, ainda percebe uma forte presença masculina que domina esses ambientes: “Acredito que bares e botecos mais simples ainda tem maior presença do público masculino, já em bares e botecos mais conhecidos você encontra mais mulher. Acredito que as mulheres estão em busca de locais mais descontraídos e animados para comer, beber e se divertir, mas elas ainda precisam se sentir mais seguras para frequentar esses espaços sem ligar para julgamentos”, destaca.
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  • Dos bares do Rio

    A forma você escolhe. Pode ser de frente pro mar, pro morro ou pra rua. A mesa e o copo podem estar em qualquer um desses cenários. A birosca pode ter a porta voltada para qualquer uma dessas vistas. A cadeira pode ser de plástico, de ferro, de madeira ou de encostar. O som pode ser do samba, da bossa ou do papo. Não importa a preferência, o prazer boêmio alcançará certamente seu êxtase. Para um bom bebedor, um Rio de Janeiro basta.

    Pela orla, pelos bairros, pelo subúrbio, os bares se esparramam pela cidade. Pelas paredes, as garrafas cheias ou pela metade são decoração e história. Pelos letreiros, as quentinhas são o sabor do dia. Sabor que acompanha quem não pode parar. Os botecos tem pratos feitos. Feitos de comida, sustância. Pelos cardápios, os petiscos são as boas-vindas para quem pode ficar. Pelas calçadas, os pés de chinelo.

    Não sei o que é. Se é a maresia, as coordenadas no plano cartesiano, as correntes de ar, a relação temperatura x pressão, as cadeias de montanha. Eu não sei o que é. Só sei que o Rio e seus componentes favorecem, e muito, a parada num boteco, a degustação de uma (ou umas) cerveja(s) e o salgar da língua com um tira-gosto. A atmosfera que envolve a cidade favorece. Pede, quase implora. Negar é sacrilégio. Eu não sei o que é, só sei que é assim que sinto.

    Em minha última visita, pulei a cerveja. Na verdade, confesso, roubei um golinho pra matar a lombriga. Mantive os outros itens pra não perder o costume, nem cometer o pecado da desfeita. A malemolência do clima libera a malemolência da alma. E ela sai lavada. Sai leve e ao mesmo tempo pesada, cheia de sensações. Até aquela simpatia desaforada do garçom que não acompanha a maré, a gente releva. Entende que faz parte do cenário, do esquadro, do charme. Para mim, toda passagem pelo Rio de Janeiro, até mesmo quando programada às pressas, de última hora, é um convite ao deleite, aos bares. Um convite irrecusável da e à boemia.    


    Lívia Mota,  jornalista colaboradora do Cumbuca (saiba mais sobre a autora do artigo no QUEM FAZ)

  • Miki Bar e Sociedade incentivam a leitura no boteco

    Quem disse que boteco e literatura não combinam? A leitura pode ser muito bem vinda em diversos ambientes e no bar não é diferente! Pensando nisso, os proprietários de dois bares de Campinas desenvolveram bibliotecas para estimular a leitura dos frequentadores nas idas aos botecos. (mais…)

  • Mulheres no Boteco: Letícia é adepta da arte de botecar

    Letícia Marega, 26 anos (foto)

    O que mais gosto nos botecos é o clima de descontração, relaxamento e a diversidade cultural encontrada

    Letícia é administradora por formação e não dispensa um bar, seja durante os dias de labuta ou no fim de semana. Todo motivo é válido: costuma ir para encontrar amigos e jogar conversa fora, celebrar ocasiões especiais e até mesmo para afogar as mágoas. Adepta da filosofia de que não tem tempo ruim, ela vai aos bares para beber uma gelada nos dias quentes e para esquentar os dias frios. Desculpas não faltam para botecar.
    Com ela não tem tabu. Geralmente, vai aos bares com grupos de amigos, mas quando ninguém está a fim, ela é suficientemente independente para ir sozinha e desfrutar de sua própria companhia, lendo um bom livro ou socializando com outras pessoas.
    Para beber, cerveja e, de preferência, no tradicional copo americano de boteco. Não se apega muito a marcas, mas confessa que sempre fica de olho no preço e a que estiver mais em conta ganha. Dependendo do bar, Letícia desfruta também de um chope e uma dose de Jägermeister para dar um grau.
    Apesar de suas idas aos bares terem foco no bate-papo, entrosamento e bebida, ela diz que não tem como não se render às delícias da baixa gastronomia. “Na real, uma coisa puxa a outra e sempre opto pelas iscas de frango, batatas fritas e outras porções rápidas e sem muito requinte”, comenta.
    Letícia se sente cativada por esse clima ameno de boteco, em que ela pode ir para  esquecer os problemas e curtir uma tarde ou noite despreocupada. A diversidade cultural também é um atrativo para ela, pois pessoas que nem sequer se conhecem podem se comunicar, trocar situações curiosas e estabelecer laços. Ela conta que ela mesma já fez alguns amigos em botecos e que hoje leva pra vida.
    Como mulher, ela comenta que o que mais a incomoda é a divulgação de propagandas que colocam a mulher como objeto: “É comum as marcas de cerveja utilizarem mulheres nos comerciais como ‘isca’ para atrair homens e, geralmente, mulheres com um padrão de beleza que não é a realidade da maioria”. Se diz também irritada com o desrespeito de alguns homens que frequentam os bares e se julgam no direito de fazer piadinhas sexistas, de se sentarem à mesa sem serem convidados e coisas do tipo. Lamenta também quando presencia cenas nas quais os garçons e proprietários se calam diante dessas situações ou quando se colocam a favor dos opressores.
    Apesar do assédio ainda presente, ela se diz feliz por encontrar tantas mulheres nos bares e fala que a luta da mulher não deve parar: “Estamos buscando além do reconhecimento, um espaço que nos foi tomado há anos, estamos nos impondo e exigindo mais respeito e tratamentos iguais. Isso merece um brinde”, enfatiza.
     
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  • Visitamos o novo Boteco Villa Brasil

    Chegamos e de cara já gostamos da proposta do Boteco Villa Brasil. Recém-aberto, o boteco buscou inspiração nos sabores do Brasil e conseguiu traduzir em petiscos, porções e caldos algumas das delícias do País. E tem para todos os gostos e partidos. (mais…)