Posso morrer em paz

Muita coisa mudou de um tempo pra cá. Muita coisa virou de ponta cabeça. Muita coisa ficou de pé. Outras tantas saíram e entraram do eixo. A vida deu um giro de ballet. Agora a gente é quem acorda o sol e nem sempre vê a lua no céu. O dia tem cheiro de leite. Às vezes azedo, quase sempre doce. Os passeios são diurnos. A noite fica pro silêncio e descanso.

Entre tantas mudanças, presenças e ausências que a maternidade tem me oferecido, uma falta eu preciso confessar que tem sido das mais sentidas.  Sinto saudades da cadeira, da mesa, do cheiro e do copo de bar. Sinto saudades de sentar na calçada e esquecer das horas que atravessam as conversas e os goles. Sou mãe agora, muita coisa mudou, mas meu gosto pela cerveja e pelo bar não. Terei que adapta-lo, claro, mas não deixa-lo, claro. 

Chega a dar aquele apertinho do lado esquerdo quando passo pelas portinhas e seus balcões. O burburinho, a fritura, o som da garrafa abrindo. Coisa boa demais. Eu passo, olho, suspiro e volto minha atenção pra pequena colada em mim. Dou um beijo no rosto dela e digo em pensamento: ainda vamos dividir muitas mesas pela vida, filha. Ela pode não gostar de cerveja, nem de bar. Mas eu idealizo mesmo assim.

Olho para ela hoje e já imagino mil momentos amanhã. Sei que ainda vai demorar muito tempo. Quero aproveitar cada passinho dela nessa sua jornada comigo. O engatinhar, andar, falar. Tudo. Cada descoberta dela é uma descoberta minha. Estamos nós duas nascendo.

Olho para ela hoje e já tenho mil desejos. Desejo que seja uma mulher guerreira, forte, que defenda suas ideias e ideais. Que não se cale. Que lute. Que use a roupa que quiser, transe com quem e quando quiser. Que decida se casar e ter filhos ou não. Que viaje acompanhada ou sozinha. Que conheça o mundo e tenha seu próprio universo. Eu desejo tudo isso e muito mais. São meus desejos, mas a vida é dela. Como toda mãe, minha felicidade será a alegria dela. Mas, se ela foi feliz comigo, tomando uma cerveja num sábado à tarde em alguma birosca por aí, ah, nem sei. Eu posso morrer em paz.

 


Lívia Mota,  jornalista colaboradora do Cumbuca (saiba mais sobre a autora do artigo no QUEM FAZ). Escreve o blog maetrapilha.com.br sobre sua “viagem alucinante, alucinógena, alucinatória chamada maternidade”.

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