A incansável procura da coxinha perfeita

Muitos não admitem, alguns nem sabem, mas estamos todos à procura da coxinha perfeita. É o Santo Graal dos botequeiros. Os donos de padarias, bares e similares bem o sabem, tanto é que não há estabelecimento que se preze que não as ofereça. Até postos de gasolina já as têm! Que pokemon, que nada! A verdadeira caçada dos brasileiros é pela coxinha perfeita.


As crianças já aprendem a procurá-las, desde a mais tenra infância, nas cantinas escolares; jovens as caçam em lanchonetes; adultos olham nas estufas dos botecos para, já conhecedores, conferir a aparência do salgado predileto; velhinhos e velhinhas, na malandragem, furtam-se das dietas vigiadas pelos filhos e netos para, na ida vespertina à padaria para comprar pão, fazerem sua lambança com a coxinha do portuga.
Não adianta oferecer croquetes, risoles, empadas, quibes, bolovos ou esfihas. A santa busca é pela coxinha. O único que poderia contestar a preferência é o pastel, mas para este aí todo mundo sabe onde está o perfeito: na feira. E em poucos bares há pastéis, ao contrário da coxinha, que todo botequim que pretenda honrar o nome tem obrigação de oferecer.
Há gosto e versões para tudo no universo das coxinhas: das ortodoxas às com catupiri, ou mesmo outras que usurpam o nome da mais querida: de costela, de carne-seca ou outras quetais e quenens. Numa piada datada chegaram a inventar até a coxinha de mortadela! Céus! Sacrilégio dirão alguns! O nome do salgado já determina o recheio: coxinha! Logo, o recheio tem que ser de carne de galinha, oras de buzina. O resto é tudo bolinho. Nem o coxão – aquele que é feito com a coxa do frango empanada com osso e tudo – se atreveu a usar o nome da mais desejada. Nada contra o gosto de cada um, mas por que não chamar pelo nome correto: bolinho de carne, bolinho de carne-seca, bolinho do raio que o parta. Se bobear, já deve haver até coxinha vegana. Sacrilégio, digo eu! Bolinho de legumes é o que é. Por mais democrático e liberal que eu seja, não dá para engolir esta.
Algumas pistas já foram descobertas sobre a coxinha perfeita, e muitas delas já estão desvendadas para o público pelo Cumbuca (ver a Seleção de Coxinhas), em sua infatigável busca do Santo Graal dos botequeiros. Eu, humildemente, junto a este quebra-cabeças uma informação que acho imprescindível, meus irmãos caçadores de coxinhas: têm que ser frita na hora; a textura crocante da casca, a temperatura correta e a dureza da massa só são encontradas naquele momento em que ela é retirada daquele óleo assustadoramente quente e levada direto ao cliente. Só nesta hora é possível respeitar todo o ritual adequado, em que se rompe a massa no lado de cima – não, não cometam a heresia de romper a massa pelo cabinho, que deverá ser usado ao final para sustentar o derradeiro recheio no último e emocionante bocado –, deixa-se aquele vaporzinho maravilhoso escapar do recheio, coloca-se o molho de pimenta – ok, respeitemos o gosto de quem não gosta de pimenta e permitamos que se deliciem sem ela, afinal, nem mesmo entre os cristãos os ritos são iguais –, e dá-se a primeira mordiscada, delicada e terrível para os lábios que se queimam, naquele naco que foi retirado do corpo da coxinha. A partir daí o sujeito faz a lambança do jeito que quiser: uns comem lambendo os beiços, outros deliciam-se de joelhos, mas aí depende mais da coxinha que do glutão.
De um jeito ou de outro, a busca é interminável, até porque, mesmo que tenhamos acabado de comer a melhor coxinha de nossas vidas, alguém vai dizer: ah, mas você ainda não comeu a coxinha do bar do fulano de tal!


Daniel Soares – caçador de coxinhas e proprietário do Sociedade Bar
 


Para ver a a Seleção de Coxinhas do Cumbuca, clique aqui.

 
 

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