A combinação mesa, calçada, copo e cerveja é uma das minhas preferidas. Não é novidade alguma. A novidade é outra. Mas o que fazer quando a combinação fica incompleta? Quando um item fica de fora? Um dos mais importantes? E quando não se pode beber? Vale o bar, a mesa e a calçada? Confesso que dentro de mim há um conflito. Pode parecer loucura, dependência, crise. Pode parecer o que quiser. Eu sei o que me parece. Parece que falta alguma coisa, que não faz sentido.
Pode parecer egoísmo, desculpa, falha. Me parece bolo de cenoura sem cobertura, beijo sem abraço. Eu sei, eu sei. Os bares tem muito mais a oferecer. As comidinhas são, em sua maioria, grandes protagonistas. Penso na sardinha de um, na batata de outro, na coxinha do sicrano, no pastel do beltrano. As tentações são muitas. Mas secas, sem aquele gole gelado, elas me parecem viúvas. Choro pelo defunto.
Em todo o caso, enquanto escrevia esse texto lamento, me lembrei de um bar. Um bar de infância. Um bar de quando eu não bebia. Ele ficava numa esquina em frente a casa dos meus avós. Um casarão azul e branco descascado, duas portas de metal, duas mesas de armar, bancos altos. Baleiro. Canudos doces. Salgadinhos no pacote. Na parede, garrafas empoeiradas de cachaça. Atrás do balcão, seo Coco.
Cabelo já bem branco (na minha cabeça esse era o motivo do nome). Ia com meu pai, antes do almoço de domingo. Me entupia de balas e salgadinhos. Depois, nada de almoço. Óbvio. Se era um lugar salubre pra uma criança eu não sei. Nem me importa. Eu era tão feliz. Estar ali me fazia sentir importante ao lado do meu pai. Quase uma adulta. Eu não bebia, mas estava ali, presente, participante. Era o bar do Coco. Bar que ficou na minha memória. Na minha história.
Botecos, com balcão e estufa, podem e vão muito além da cerveja e do tira-gosto. Eles são história. Histórias. Do dono, do cliente, do passante. Não importa. São encontros, registros e momentos. Sendo assim, mesmo não bebendo, temporariamente, sigo escrevendo, ouvindo e vivendo histórias. Seguirei frequentando mesas, calçadas e balcões. Mesmo que no começo estranhe a ausência do copo e da cerveja.
Lívia Mota, jornalista colaboradora do Cumbuca (saiba mais sobre a autora do artigo no QUEM FAZ)
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