Eu estava aflita. Muito aflita. Queria estar ali. Queria muito. O assunto me interessava bastante. Mas eu estava sem ela. E toda vez que fico longe dela, eu fico aflita. Algumas vezes preciso, outras quero mesmo ficar um pouco longe. Fico aflita em todas. O convite para o evento veio de uma amiga e aceitei. O evento era sobre harmonização de comida de boteco com cervejas especiais no Senac Campinas. Aceitei muito. Eu estava aflita, mas queria estar ali.
O sommelier falou sobre a origem da cerveja, seus ingredientes, escolas (Alemã, Anglo-saxônica, Belga e Americana), lei da pureza, estilos. Tudo muito bem explicado. Aprendi muita coisa. Muitos conceitos. Muita teoria. Nesse quesito cerveja sempre fui mais adepta da prática mesmo. Na mesa preparada para nos receber, uma porção de frios e taças para degustação. A intenção era lembrar um boteco. A intenção foi boa, mas limpa demais para um bar. Eu estava feliz por estar ali. Mas estava aflita também.
Olhava para o professor e para o relógio. Olhava para o professor, anotava e olhava para o celular. Ela estava com o pai. Poderia ficar mais do que tranquila, mas não. Eu estava aflita. Eu queria estar ali. Mas estava longe dela. Contradições, contrários, contrações. Maternidade, bem-vinda. Depois das explicações sobre IPA, Weiss, Pilsen, malte, lúpulo e cereais, começamos a provar os sabores na boca.
E se chorasse? Harmonização é a união dos sabores da bebida com a comida. E se tivesse dor de barriga? Harmonização se dá por duas vias: semelhança ou contraste. E se ficasse com fome? O bolinho de bacalhau é fritura, para cortar a sensação da gordura na boca, acidez da Mariage Parfait, uma Geuze belga. E se quisesse dormir no meu colo? O croquete de carne desfiada ameniza a pegada mais forte da Fuller’s London Black Cab, uma Stout inglesa. E se não dormisse nada? O segredo está em degustar comida e bebida ao mesmo tempo para que os dois conversem. E se não parasse de chorar?
Foi com essa cabeça louca e dividida que aprendi mais sobre cervejas, petiscos e como combinar os dois. É com essa cabeça louca e divida que estou aprendendo a harmonizar minha vida de antes com a vida de agora. Aprendendo a harmonizar tudo que fui e vivi com o que construo e vivo hoje. Aprendendo a ser mãe sem deixar de seu eu. Obrigada pela experiência, Senac Campinas.
Lívia Mota, jornalista colaboradora do Cumbuca (saiba mais sobre a autora do artigo no QUEM FAZ). Escreve o blog maetrapilha.com.br sobre sua “viagem alucinante, alucinógena, alucinatória chamada maternidade”.
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