* foto do Sanduíche de Bacalhau – Cabral do Presta Atenção (recomendadíssimo!)
Quando alguém escrever a sério sobre a história do sanduíche, Campinas figurará, com certeza, como uma das capitais deste enredo. A primeira delas é, sem dúvida, a cidade de Sandwich, na Inglaterra, onde, segundo reza a lenda, o 4o Conde de Sandwich pediu a um criado que fizesse alguma coisa para que ele pudesse comer rapidamente, sem abandonar a mesa do carteado – até hoje não sabemos se ele não queria interromper a jogatina porque estava ganhando ou porque queria recuperar o que estava perdendo –, e o criado cortou dois pedaços de pão e colocou um naco de presunto no meio.
A segunda, temos que admitir, é Nova Iorque, por conta do hambúrguer, que, apesar de ser de origem alemã, foi colocado na América do Norte pela primeiríssima vez dentro de um pão, e pelo que dizem, em um cardápio, no restaurante Del Monico´s. Mas, depois disto, a terceira grande e genial inovação nesse assunto aconteceu em Campinas: o boca de anjo. Por tudo que sei e estudei sobre o assunto, quem inventou o corte foi o Moleza, que era chapeiro do Giovannetti. Dizem que ele fez o corte para que as moçoilas, que à época começavam a frequentar o boteco, fossem poupadas da lambança típica de quando se come um sanduíche cortado em apenas duas metades. Qualquer um que já comeu um sanduba bem recheado sabe a esbórnia que é. O boca de anjo tem outro grande mérito, além de evitar a meleca geral para a qual não há guardanapos que bastem: várias pessoas podem provar o sanduba sem o nojinho do tempero da baba dos outros – não mintam, todos tem o nojinho!
A melhor estória de sanduíche que conheço relato aqui aos prezados leitores que tiveram paciência para seguir toda esta pretensiosa e didática introdução. A parada aconteceu com o Nilson, um dos mais famosos e conceituados artistas da nobre arte de rechear o pão, que começou no Zero Grau, passou pelo City Bar, pelo Zin Bar, e hoje se ocupa em satisfazer os glutões no Bar Sociedade:
Isso aqui aconteceu há muito tempo. Naquela época éramos uma turma e íamos direto ao City Bar. Só lá. Quase toda noite. Nesse tempo eu ainda não estava com a Mara e todo mundo queria traçá-la. Todos os homens e algumas meninas também. Não que isso tenha mudado. Isso já me custou algumas amizades que desfiz e outras que deixei de fazer. Literalmente todo mundo dava em cima dela. Inclusive os garçons do City e demais funcionários. Naquela época o Nilson era chapeiro lá. Ficava enfiado na chapa a noite inteira, inventando e fazendo os lanches que tornaram ele e o City famosos, lanches como o Paulo Planta, o Adriano Rosa e o Verdinho. Os primeiros inventados junto com os respectivos homônimos e o último pelo Rui. Assim, Nilson não tinha muitas oportunidades para dar em cima da mulherada. Só mesmo quando alguma ia pedir alguma coisa no balcão, aí a turma detrás do balcão ficava toda melosa. Ele junto.
A cena que aconteceu me foi contada por vários que estavam lá e relato por ouvir dizer, mas as versões batem em noventa por cento. Naquele mês o Nilson havia inventado o sanduíche de bacalhau. Tenho certeza que foi o primeiro cara a fazer um sanduíche de bacalhau, pelo menos no pão francês e cortado no estilo boca de anjo. O sanduíche estava fazendo um baita sucesso. Todo mundo comentava e elogiava. A Mara, que sempre foi louca por novidade e mais louca ainda por comida, tinha que experimentar. Malandra que é, ela levantou da mesa e foi até o balcão para pedir direto na chapa.
– Oi, Nilson, verdade que agora tem sanduíche de bacalhau?
– Tem sim, Mara, quer um?
– Mas é bom mesmo? Será?
– Pode deixar comigo, vou fazer um especialmente para você que você vai adorar!
Aproveitando a chance de fazer uma moral com a moça, ele furou toda a enorme fila de comandas de pedidos da noite de sexta-feira para fazer o sanduba mais recheado de todos os tempos. Até tirou o miolo do pão para caber mais bacalhau. Fatiou em finíssimas lâminas as azeitonas e a cebola. Trocou a mozarela por queijo do reino. Caprichou no azeite e na salsinha. Não fez nenhum lanche enquanto fazia aquele, apostando todas as suas fichas na raríssima oportunidade. Enfeitou com alface, tomate e gomos de limão o pratinho onde serviu o lanche cortado em dez pequenos pedaços que tinham exatamente a mesma largura. Fez uma oferenda com o prato no balcão, abrindo um sorriso e, já de volta à chapa, fazendo os lanches que ficaram atrasados, espiava com o rabo do olho para ver a reação.
A Mara comeu todos os bocados em silêncio. Impassível, ninguém poderia dizer o que ela estava achando do lanche.
Quando o Nilson viu que ela tinha acabado, não se aguentou. Veio com o sorrisão baiano aberto no rosto.
– E aí Mara, gostou?
E a Mara, com sua delicadeza peculiar, acendeu o rojão.
– Eu achei uma bosta, nem de bacalhau eu gosto.
E saiu andando daquele jeito que só mulher malandra sabe andar. Meio lento e meio gingado.
Não pagou o lanche.
Daniel Soares – companheiro da Mara e proprietário do Sociedade Bar
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